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PARA ONDE VAMOS
Por Penélope Martins, do blog Toda Hora Tem História

Desde muito pequena eu compreendi que eu e meu pai poderíamos ser grandes amigos. Ele brincava comigo e tínhamos longas conversas, algumas bem difíceis por sinal, e essa convivência não deixava escapar nada: meu pai sabia se eu estava triste ou se eu queria esconder alguma coisa para alcançar outra – o que nunca dava certo pra mim.

Mas não era só por estarmos eu e meu pai nessa rotineira amizade que se construía apesar de ser eu submetida à figura paterna durante aquele tempo de vida em que os pais tomam muitas decisões por nós. Havia outro elemento muito forte para celebrarmos uma amizade, meu pai e eu, era o meu avô.

Quando criança, meu pai ganhou uma foice de seu padrinho. Meu pai me contou isso quando eu também era bem criança, por volta dos seis anos.

Por que um menino ganha uma foice? Essa pergunta poderia me atormentar durante anos, porém meu pai falava daquilo como se fosse um pacto de amizade com o pai dele, que também precisava de uma foice para trabalhar em sua quinta (uma roça, alguns diriam).

Meu avô trabalhava duro e meu pai criança era seu parceiro fiel a cortar capim, a colher o trigo, a dar de comer para animais de criação.

As vezes meu pai tinha uns repentes de criança; ao invés de trabalhar, fugia pela janela para nadar no rio. Meu pai me contou que, numa dessas vezes, o meu avô escondeu as roupas dele – que estavam na beira do rio – e ameaçou dar um castigo com uma varinha. Mas meu avô nunca estendeu a mão para castigar meu pai, nem varinha. Meu pai também não me castigou na minha infância, e a história do menino que ele foi combinada com a minha história de menina, confirmava ao longo de nossa convivência os grandes amigos que seríamos, e somos.

Aperta meu coração saber que meu pai teve que sair obrigado de seu lugar, seguindo meu avô para um país novo e distante. A viagem dos dois, meu avô e meu pai, deixou para trás a paisagem da aldeia, as fileiras de oliveiras cultivadas durante anos, os animais de criação, o castelo de pedra que servia para acolher meninos, também o rio. O rio.

– Para onde estamos indo?

Meu pai perguntou inúmeras vezes, mas ninguém da família saberia explicar. Não havia ideia de sair da aldeia, nem desejo para fazê-lo: era uma imposição mal compreendida do tipo que nunca se poderá compreender sob pena de nos tornarmos mais frios e menos humanos.

Ao chegar no Brasil, meu pai foi ridicularizado pela forma como se vestia, pelo jeito como falava e pensava. Era uma travessia pra além da geografia dos mapas, ele era obrigado a viajar dentro de si, desapegando-se de suas referências mais caras para reaprender a viver com coragem e fé.

Esse olhar para o menino que existiu antes do adulto que é meu pai, ajudou na construção de nossa amizade – duas crianças que seguem suas memórias de afetos.

Hoje a gente se reune, meu pai e eu, e as histórias se misturam numa viagem por nossas existências. E é tão bom seguir viagem com um amigo por perto.

Sobre grandes travessias, uma história pode desdobrar outras tantas leituras… Como a de Jairo Buitrago Para onde vamos. O livro tem ilustrações de Rafael Yockteng, tradução de Márcia Leite, está disponível pela Editora Pulo do Gato, de São Paulo. A narrativa conta os momentos de uma menina que viaja com seu pai, mas não sabemos para onde eles vão. Durante a longa caminhada, ela vai contando os animais, as nuvens e as estrelas do céu. Também conta crianças e soldados. Às vezes, eles param em algum lugar, durante uns dias, pois o pai precisa ganhar dinheiro para prosseguirem.


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