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POR QUE PODEMOS FALAR SOBRE A MORTE
Revista Nova Escola, por Regina Scarpa

Publicado em: Revista Nova Escola - Novembro de 2015

 

Recentemente, li Íris – Uma Despedida (Gudrun Mebs, 80 págs., Ed. Pulo do Gato, tel. 11/3214- 0228, 27,80 reais), uma obra infanto-juvenil, com belas ilustrações de Beatriz Martín Vidal. A história é muito sensível e mostra uma criança falando sobre a doença e o falecimento da irmã. O texto, em primeira pessoa, descreve os sentimentos dessa menina e sua relação com os pais em um momento tão difícil. Essa leitura me fez pensar sobre como a literatura e a arte têm se constituído nos únicos meios dos pequenos pensarem sobre esse assunto tão importante e tão humano: a morte.

Lembrei da minha infância e das vivências que eu tive em uma cidade pequena, no Sul de Minas Gerais. Todos os dias, às 8 horas da manhã, o alto- -falante da igreja anunciava os falecimentos. Automaticamente, a residência da família que tinha

perdido um ente querido se enchia de amigos. Nós, crianças, ficávamos na sala onde o velório ocorria e brincávamos embaixo do caixão, ao lado da mesa farta montada para o café, com doces, biscoitos de polvilho e compotas. Essa experiência sempre me fez valorizar a vida e o fato de eu e todas as pessoas queridas estarmos bem.

Cada cultura lida com a morte de uma maneira diferente. No México, o dia dos mortos é uma grande festa nacional. O historiador francês Philippe Ariès (1914-1984) escreveu sobre essa diversidade em História da Morte no Ocidente – Da Idade Media aos Nossos Dias (edição esgotada). Ele descreve como esse acontecimento deixou de ser algo considerado familiar e natural para passar a ser um tema praticamente proibido.

Em alguns locais do Brasil, especialmente nas grandes cidades, os óbitos têm sido escondidos das crianças. É comum que alguém que nasce em São Paulo, por exemplo, só veja um caixão depois da adolescência ou até na fase adulta. Apesar disso, esse assunto é recorrente nas turmas de 4 e 5 anos. Nessa faixa etária, as meninas e os meninos passam por uma espécie de adolescência infantil e ficam um pouco existencialistas.

No faz de conta, elas brincam, fingindo que estão “morridas”, deitam no chão e depois levantam, como se o falecimento fosse um estágio passageiro.

Na vida real, encaram a morte e o conseqüente desaparecimento não apenas de familiares, mas também de animais de estimação queridos. Tentando entender o que se passa, enfrentam dilemas e fazem perguntas como “Quando a gente morre, não leva nada, nem a fraldinha?” ou choram se o pai vai viajar de avião porque alguém disse que “quem morre, vai para o céu”. Nos desenhos animados, veem falecimentos trágicos como os da mãe de Bambi ou do pai do Rei Leão e assistem a personagens como Tom e Jerry que a cada episódio são esmagados e revivem, voltando a correr logo depois.

Portanto, definitivamente, essa não é uma preocupação exclusiva dos adultos. Quem atua na Educação Infantil precisa manter uma escuta atenta também para esse tema e colaborar para que todos pensem sobre isso como algo natural, parte da vida. A melhor abordagem vai depender muito do contexto. Se alguém querido faleceu e

o pequeno está triste, provavelmente será melhor realizar uma conversa mais individual e acolher os sentimentos dessa criança. Caso a turma toda esteja curiosa e cheia de perguntas, a leitura de um livro como Íris – Uma Despedida pode ajudar a trazer as percepções à tona e conversar.

Ao se tornar mais conhecida e visível, a morte pode ser elaborada pelos pequenos que estão apenas iniciando sua trajetória. Você só consegue compreender algo que conhece e com que se relaciona. Então, não adianta tratar um aspecto inerente a todo humano como assunto proibido.

REGINA SCARPA Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora pedagógica da Escola Vera Cruz, em São Paulo.


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