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A ESCUTA NAS PRÁTICAS DE LEITURA
Matéria publicada na Revista Presença Pedagógica

Publicada em: Revista Presença Pedagógica - Outubro/2014

A ESCUTA NAS PRÁTICAS DE LEITURA

Mesmo antes do surgimento da escrita, o homem lia o mundo com o seu olhar, com suas experiências sensoriais. Utilizando-se da linguagem oral e das imagens, trocava ideias, refletindo sobre tudo o que o cercava. E, mesmo depois da invenção da escrita, continua utilizando-se da palavra oral e das imagens para fazer observações, transmitir conhecimentos, partilhar suas impressões sobre a vida e discutir as questões que ocorrem a sua volta.

A produção de sentidos a partir da leitura, seja pela criança, pelo leitor jovem ou adulto está relacionada a vários elementos, entre os quais podemos destacar: o ambiente de leitura; a formação histórico-cultural do leitor; sua disposição pessoal para a leitura; as leituras anteriores feitas pelo leitor; a forma como a leitura é mediada etc.

Na escola, especificamente, as apropriações feitas pelo aluno são múltiplas, com diversas interpretações, valorizações que estão ligadas aos elementos mencionados, como também ao trabalho desenvolvido em sala de aula, na biblioteca, na totalidade da escola ou fora dela. A leitura com envolvimento proporciona uma simibiose entre o leitor e o livro, mas quando esta não é acompanhada e orientada pode não atingit os seus objetivos. Um sujeito que tem uma história de mediação afetivamente positiva com relação a essas práticas de leitura desenvolverá a capacidade de “ouvir” nas entrelinhas dos textos.

O livro Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura, da pesquisadora argentina Cecilia Bajour, trata justamente dessas discussões sobre o papel do mediador e a qualidade de suas intervenções, tendo como propósito principal refletir sobre a escuta como vínculo pedagógico entre docentes e alunos em diversas práticas de leitura literária.

A obra é fundamentada em autores conhecidos no campo da leitura e da literatura, como George Steiner, Roland Barthes, Aindan Chambers, Anne-Marie Chartier, Jean Hérbrarde e Italo Calvino. Além disso, baseia-se na avaliação de práticas pedagógicas de docentes que concluíram o curso de pós-graduação, em nível de especialização, em Literatura Infantil e Juvenil, promovido pelo Ministério da Educação argentino, na cidade de Buenos Aires. O livro tem sua origem em textos autônomos de Cecilia Bajour apresentados em importantes eventos realizados na América Latina.

A autora acredita que a leitura literária exerce papel significativo na constituição do ser humano, contribuindo, entre outras coisas, para instigar a imaginação, a criticidade e desafiar o leitor a buscar outros sentidos além do que está sendo sugerido. Nesse sentido, ela discute a concepção dialógica da leitura e da formação de leitores, em que se faz necessária a escuta atenta às entrelinhas nas atividades de mediação da leitura literária em contextos escolares escolares ou não escolares.

Para Cecilia, a tarefa do professor é “escutar e se nutrir de leituras e saberes” a fim de descobrir como ocorre a construção de mundos com palavras e imagens. O mediador deve esboçar perguntas que instiguem a discussão, o pensamento sobre o lido. Para isso, entra a necessidade primeira de se conhecerem a fundo os textos que serão escolhidos.  Somente assim tem-se uma escuta apurada no momento da conversa.

Capítulos

No primeiro capítulo, a autora define as linhas gerais sobre as quais organiza o conjunto da obra. Ela discorre sobre a importância da escuta para o sucesso no trabalho com a leitura e enfatiza o papel do mediador como sujeito ativo na interlocução entre o texto e o leitor. Destaca ainda o potencial da conversação literátia como possibilidade de mudança nos métodos tradicionais de leitura adotados na escola e aponta a seleção de textos como sendo um dos pilares no trabalho de formação de leitores.

Nesse sentido, essa obra é reveladora ao tratar da ação de escutar como uma prática que se aprende, que se constrói, que se conquista, que demanda tempo. É uma atitude ideológica que parte do compromisso com os leitores e com os textos e do lugar conferido a todos aqueles que participam da experiência de ler.

No segundo capítulo, o texto debruça-se sobre a conversa literária como uma situação de ensino. A partir da análise de falas dos professores que participaram do curso de especialização em Literatura Infantil e Juvenil, a autora ressalta que diversas experiências relatadas mostraram a necessidade de um posicionamento crítico por parte dos professores a respeito da relação entre seleção de textos e teoria. Quanto mais esses mediadores conhecerem a respeito dos textos e das maneiras de lê-los, menos ficarão presos a receitas, esquemas, critérios fixos etc. no momento de fazer escolhas. Esses pontos de partida muitas vezes desprezam a importância do estético e propõem classificações e tipologias que deixam o literário e o artístico em segundo plano.

A autora alerta que “a escolha de textos vigorosos, abertos, desafiadores, que não caiam na sedução simplista e demagógica, que provoquem perguntas, silêncios, imagens, gestos, rejeições e atrações, é a antessala da escuta”. Além disso, ela acrescenta que é fundamental que o professor conheça bem os textos que serão escolhidos a fim de garantir a autoconfiança durante a prática e a capacidade de uma escuta apurada no momento da leitura e da conversa sobre os textos com os alunos.

O capítulo ainda trata de um tema que comumente preocupa aqueles que fazem a seleção dos livros a serem trabalhados com os alunos: a democracia na hora da escolha. Os relatos demonstraram que uma postura flexível, baseada na confiança, no que as crianças e os jovens são capazes de fazer quando escolhem, abre caminho para que a aprendizagem ocorra mutuamente. Aceitar os livros escolhidos pelos alunos, mesmo que os valor deles seja duvidoso, cria a oportunidade de discutir sobre esse material e ajuda no desenvolvimento das suas argumentações sobre seus gostos e saberes.

O título que introduz o terceiro capítulo traz uma indagação provocativa: “O que a promoção da leitura tem a ver com a escola?”. Inicialmente, a autora tece críticas sobre algumas versões que são dadas ao conceito de “promoção”, associando-o à ideia de “animação”, “espetáculo”, “show”, que acabam deixando o livro e a leitura em segundo plano ou, em casos mais graves, nos quais eles quase não aparecem. Por outro lado, ela mostra-se a favor de muitas práticas artísticas ligadas ao campo da “promoção” que colocam a leitura e os livros como o centro das propostas. Artes como o teatro, a narração oral, o cinema e as canções podem oferecer novas possibilidades sempre que valorizam esteticamente os textos e os colocam em destaque.

Entretante, Cecilia não defende a desescolarização da leitura. De acordo com a sua opinião, “não há motivo para que a responsabilidade da escola de propiciar aos alunos experiências culturais ricas e variadas seja concebida de forma apartada da responsabilidade de ensinar”.

No quarto e último capítulo, a autora, no intuito de ampliar as discussões sobre as escolhas, trata da questão do cânone referente à literatura infantil. Ela propõe uma forma possível de mudar essa ideia de cânone, concebido como algo totalitário, sagrado, surdo e autorreferencial, que consagra os textos e define sua circulação. Cecilia aponta que se deve pensar em um cânone que escute, que se ofereça ao diálogo, que se abra para a cultura que corre fora das instituições e que não se reduza a seus ditames.

A partir da leitura da obra, pode-se concluir que a literatura na escola deve se pautar em textos que possibilitem o desenvolvimento do senso crítico. Os alunos devem ser percebidos como leitores plurais, e as mediações, por outro lado, necessitam de critérios e ações capazes de levar o leitor inciante a valorizar a leitura e a reconhecê-la como um processo de escuta que conduz a novos horizontes.

É necessário que os professores avaliem suas práticas, no que se refere à indignação de leituras para os alunos. O trabalho a partir de obras legitimadas, com interpretação acompanhada pelo professor através de avaliações ou atividades valorizadas, na maioria das vezes não leva em conta a qualidade do texto e todas as suas possibilidades. Ao contrário, restringe a interpretação a uma série de perguntas e respostas que não ajudam na formação do leitor. Desta forma, o livro de Cecilia Bajour é muiro bem-vindo, por anunciar e reafirmar que todos os esforços em prol da leitura só terão validade se buscarem relação entre eles e conquistarem um maior espaço de tempo para que possam ser avaliados e revistos com frequência.


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